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Torto Arado, livros e as lembranças afetivas

Para mim alguns livros carregam fortes lembranças afetivas. Eles me conduzem ao passado e resgatam boas sensações. O Senhor dos Anéis me lembra o ensino médio, o pé de jabuticaba do vizinho e a assinatura carinhosa dos meus pais na folha de rosto: “Para Marina…com muito amor. 01/2002”. A biografia de Kurt Cobain me faz recordar os encontros com os amigos na calçada do Banco do Brasil. Alguns livros da série Vaga-Lume me remetem aos anos 80, escola e brincar na rua. 

Torto Arado ocupou o seu espaço, mesmo com o passado cheirando ainda a tinta fresca. Embalei a leitura dele durante uns dias isolada em São Sebastião, no início de setembro. Ele me lembra os dias em que eu coloquei banana no comedouro para atrair os pássaros e olhei para o céu diversas vezes para vê-los de tantas formas, cantos e cores. Ele me lembra os dias em que eu acordei assustada no meio da noite com o barulho de bicho rondando a casa. Pensei em Santa Rita Pescadeira que dormia na beira do rio sem medo de onça e cobra. Queria ter um pouco de sua coragem. 

É o livro que já me faz reviver os dias cercada por vegetação. E de também reclamar da chuva que não deu sossego. Não aprendi como o povo de Água Negra a reverenciar cada acontecimento da natureza. A valorizar a terra como Zeca Chapéu Grande, que se deitava sobre ela para ouvi-la quando encontrava um problema na roça. Ele não conhecia as letras e números, mas sabia sobre as ervas e raízes, sobre as fases da lua, as nuvens, quando ia chover ou não. 

Zeca ensinou a filha Belonísia a abrir o caminho na mata, a ouvir atenta o som dos animais e insetos, e que “o vento não sopra, ele é a própria viração”. Logo eu me pergunto:

Quando foi que nos distanciamos dos aprendizados da natureza, dos seus saberes mais bonitos? Das histórias de nossos ancestrais? Quando foi que desaprendemos a viver em comunidade, partilhando a colheita entre as famílias?

É proposital. Esse tempo todo fomos apresentados a uma só história. É o perigo de uma história única como Chimamanda Adichie fala. Belonísia entendeu isso cedo. Preferia estar ao lado do pai, arando a terra, aguando as plantas que debruçada nos livros que só tinham histórias de soldados, “heróis bandeirantes”, militares, médico e juiz. 

Torto Arado é este livro que me deu a chance de aprender um pouco mais sobre a identidade do povo do sertão, a vida das comunidades quilombolas, a tradição do jarê, a força de uma gente que o Brasil desconhece, que poucos livros contam. Gente que labuta no pedaço de chão, entende que a natureza não está aqui para servi-la, que prepara o campo para a semeadura, que pariu a terra como Salu. Essa é a lembrança carregada de umidade, solitude e reflexões de um passado que sempre tentaram calar. 

“O sangue do passado corre feito um rio. Corre nos sonhos, primeiro. Depois chega galopando, como se andasse a cavalo”. (p. 225)

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